domingo, 1 de janeiro de 2012

Quarta Estação: dando vida ao território

Parece estranho, mas neste 01 de janeiro lembrei de uma experiência de tempos atrás.
Cheguei no meio da tarde ao pequeno studio em um palazzo tradicional de Pisa: uma porta estreita, conduzindo a uma escada, levava aos dois pequenos apartamentos de um B&B bem peculiar. A propietária abriu a porta e mostrou-me, satisfeita, o que seria meu território naquele mês. A atmosfera nublada emprestava aos ares do local um certo desconforto, uma luz sem vida, que se refletia nas portas de vidro do quarto e na janela típica, que dava para o interior do prédio. O pé-direito muito alto, a pequena mesa de madeira com quatro cadeiras, a cozinha embutida, a poltrona azul no quarto-destoando da decoração-, os dois  abajures longos pela sala, a estante vazia: todos os elementos de um espaço silencioso, vago, quase assustador. Faltava bagunça, faltava entusiasmo, faltava um jogo de luzes que tornasse o studio acolhedor. Sim, havia falta de vida. Ou era uma tristeza espalhada, sem formas, que ocupava o lugar? Foi como recebi as chaves.  Era tudo muito longe do que eu tinha criado, e a mera idéia de atravessar um longo período ali me desconcertou. Recebi as orientações, as boas-vindas. Fechei a porta, irritada com a inadequação do ambiente ao meu imaginário, e fiquei sozinha  naquele espaço burocrático.
E não é assim que recebemos um novo ano: em branco, esperando por nossa apropriação? Pois é sobre isto que quero falar. 
Após dormir um pouco, saí para conhecer os arredores, e já anoitecia. Jantei algo no caffé do térreo do palazzo, um tradicional espaço da elite intelectual da cidade, por muito tempo; hoje um café comum, com sua história contada em quadros na parede. Na volta para "casa", comecei a descobrir quais as luzes tornavam o conjunto mais festivo, mas o pé-direito alto era sempre um inconveniente. Coloquei objetos em cima da mesa, desalinhei as cadeiras, deixei roupas em cima da poltrona azul. A atmosfera cinza da tarde era substituída por minha anima, que ocupava-se em dar ao studio meu entusiasmo. Coloquei livros na estante, e fui comprando novos; encontrei tempeiros para os vidros vazios, garrafinhas pequenas de Lemoncello, presentes, adornos. A casa ganhou um aroma próprio, resultado de sabores, guloseimas, vida.
Aos poucos, o studio adquiria mais vida e preenchia-se de uma alegria interessante: a presença de mágica. Enfim, tornara-se um espaço lúdico (e sim, com alguma bagunça). Em alguns dias, percebi que já habitava um lar, descobrindo, nas luzes dos abajures, na janela aberta, na posição das cadeiras, nos livros na estante e em detalhes cotidianos, os registros de minha presença ali. E ainda viriam outras etapas, necessárias para a tomada daquele local como 'minha casa', mesmo que temporária. Contarei novas mudanças em outras estações.
E hoje reflito. É progressiva a apropriação de um espaço, de um tempo, de uma idéia. Percebi que, ao conhecer-me, pude saber que atmosfera desejava criar para mim; escolhi quais componentes  adaptaria para tornar o studio próximo ao que minha imaginação havia criado, adotei mudanças na estante que a tornaram peça chave da transformação do todo, abri as folhas da janela e as portas de vidro do quarto, e provoquei, entre elas, um movimento de luzes que resultava em um prisma decorando a sala. Em pouco tempo, o local foi preenchido de vida, de expectativas realizáveis, de afazeres domésticos que reluziam na força anímica que a casa recebia.
Agora, há um ano todo pela frente, um espaço ainda inabitado, pleno de vazio, de expectativas por realizar. Se ocuparmos o tempo como podemos ocupar o espaço, com nosso olhar, nossa anima, nossas características, nossas bagunças traduzidas em brincadeiras; se decidirmos pela apropriação de um ano que recebemos em branco, podemos fazer dele nosso ano, nosso tempo; assim também podemos fazer, de um território vago e desconcertante, um lar nosso. Um lar pleno de nossa vida em sua mobília, em suas estantes, em suas janelas e portas. E isto é possível na construção de um dia-a-dia pleno de nós, em que estejamos inteiros na ocupação de nosso calendário, de nossos afazeres, de nossos hobbies, de nossos amores. Quem sabe esta seja uma forma interessante de habitarmos nosso ano novo? Afinal, entregamos ao espaço e ao tempo nosso jeito de ver o mundo: e espaço e tempo são moldáveis por nossos prismas, atitudes, desejos.

Feliz Novo Dia!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu comentário é sempre bem-vindo. Lembramos: prezamos o respeito e a admiração ao leitor e a suas considerações, e esperamos o mesmo retorno ao autor e colaboradores deste livro. Muito obrigada!