sábado, 31 de dezembro de 2011

Terceira Estação: o nomadismo é aqui

Hoje acordei pensando em viajar. Levar minha caderneta, um que outro livro, roupas de inverno e a caixa de lápis de cor. Desejei que nem fosse ano novo, feriado, mudança de nada. Um dia simples, de dar na veneta, atravessar o mundo e deu! Então, levar na mala o dia nublado e alguns horizontes para o período. Não todos, para também  me fazer surpreender. E lá andar, andar, andar. Não lembro se ainda falo outro idioma, faz tanto tempo! E tenho dúvidas se ainda sei viajar sozinha, que a gente esquece de como é estar só consigo mesmo num lugar. Não sei, não. Vi mil programações, tracei percursos, vesti minha força de aventureira errante, a energia com que atravessava o oceano, e me lancei no território único de meu nomadismo. Nele, meu desejo giramundo, minha ânsia atávica de me lançar ao desconhecido, de me ver, novamente, num espaço transitório onde eu decido meus trajetos, ou onde decido soltar o mapa e me abandonar na imensidão da cidade. Me abandonar na imensidão. Basta. Não preciso viajar, mas me recordar de meu temperamento nômade, capaz de me perder em terras estrangeiras como se fossem minhas, capaz de zombar de minha distração e simplesmente trilhar. Capaz de buscar inspiração em instantes mágicos, únicos, em cenas não planejadas. Não é preciso viajar- ainda que a experiência seja sempre impressionante-, mas sim alcançar o tom exato de mim nas viagens, e aplicá-lo ao cotidiano, ao amor, à força anímica que me desperta de manhã e me atravessa pelo dia. É preciso, isto sim, descobrir o mistério que me toma num lugar estranho, a decisão  de pisar em suas calçadas, de entregar ao desconhecido meus passos suaves e, sim, temerosos. Decobrir este mistério é essencial para fazê-lo presente no aterrisar em um ano novo, totalmente novo, singular e ingênuo, pleno de espaços vazios, férteis por realizações e intensidades. Mesmo no amor é necessária a solitute, a certeza de poder viajar só pelas próprias nuances estrangeiras, alheias, de poder peregrinar e ver, com olhar único, o movimento das cidades dentro de mim. E então, na constância do amor, compartilhar com o outro as vivências, as impressões, a riqueza da individualidade- pessoal e intransferível- e da partilha, soma de indivíduos plenos. Hoje sinto pungente o desejo de ventar, de mover-me na direção do novo ano, com a mesma coragem com que chego em um lugar estranho: a curiosidade de explorar todas as cores, texturas, todas as sensações de caminhar em solo distante. Transportar para o dia-a-dia uma força de que esqueço quando boto a dormir o nomadismo dentro de mim, quando interrompo sua cascata de quereres. Não é preciso viajar, mas permitir que o novo aconteça, nas pequenas e nas grandes circunstâncias. Permitir, abandonar-se, saborear: são atributos da vida comum, que não os reservemos apenas para as viagens.
Feliz Novo Ano!

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